Lições da pandemia: como a Atenção Primária à Saúde se transformou antes e depois da COVID-19

Estudo analisa mudanças estruturais na APS no Brasil e destaca desafios, adaptações e inovações provocadas pela crise sanitária

A pandemia da COVID-19 deixou marcas profundas na saúde pública global, e no Brasil, um dos pontos de maior transformação foi a Atenção Primária à Saúde (APS). Um estudo publicado na Revista Ciência & Saúde Coletiva (2025) analisou os impactos antes, durante e após a pandemia, com foco em como o modelo de organização e atuação das equipes da APS foi redefinido diante da crise.

O artigo mostra que, apesar dos desafios, a APS demonstrou capacidade de adaptação, reorganização dos fluxos e ampliação da vigilância em saúde, revelando sua importância estratégica na contenção de emergências sanitárias e na proteção contínua da população.

Antes da pandemia: estrutura, limitações e foco assistencia

Antes de 2020, a Atenção Primária já enfrentava limitações conhecidas, como:

  • Subfinanciamento crônico
  • Estrutura física precária em algumas regiões
  • Fragilidade na articulação entre vigilância e atenção
  • Dificuldades na incorporação de tecnologias
  • Baixa valorização da saúde preventiva

Ainda assim, o modelo das Equipes de Saúde da Família (eSF) já estava consolidado como a principal forma de organização do cuidado primário, com foco em acolhimento, prevenção, longitudinalidade e territorialidade.

Durante a pandemia: reorganização, sobrecarga e resiliência

Com a chegada da COVID-19, a APS passou a cumprir papel central na vigilância ativa, triagem de casos suspeitos, monitoramento remoto e educação em saúde. O estudo revela que:

  • As unidades se reorganizaram para separar fluxos de pacientes com sintomas gripais
  • Profissionais foram capacitados para uso de EPIs, protocolos clínicos e telessaúde
  • Ampliaram-se estratégias como visitas domiciliares e atendimento por telefone
  • Houve fortalecimento da atuação intersetorial com assistência social e educação

Apesar da sobrecarga, a APS foi fundamental para evitar o colapso hospitalar, atuar em territórios vulneráveis e garantir a continuidade de cuidados não-COVID.

Pós-pandemia: desafios persistem, mas oportunidades também

O estudo destaca que algumas inovações vieram para ficar, como:

  • Telessaúde integrada à rotina de acompanhamento de pacientes
  • Protocolos mais claros para doenças respiratórias e síndromes gripais
  • Maior reconhecimento do papel da APS na resposta a emergências
  • Demanda por fortalecimento da vigilância em saúde territorializada

Entretanto, também permanecem desafios como aumento de demandas reprimidas, cansaço das equipes, desmobilização de estruturas emergenciais e necessidade urgente de reinvestimento no SUS.

Caminhos para o fortalecimento da APS pós-COVID

O artigo conclui que o Brasil precisa investir em:

  • Valorização dos profissionais da APS
  • Integração entre vigilância e atenção primária
  • Infraestrutura tecnológica e acesso digital
  • Fortalecimento das ações de promoção da saúde
  • Financiamento estável e políticas públicas consistentes

A pandemia escancarou as fragilidades, mas também reafirmou que uma APS forte é a principal linha de defesa da saúde coletiva.

Fonte

Revista Ciência & Saúde Coletiva – “O cuidado antes e após a pandemia por COVID-19: modelo de organização da Atenção Primária à Saúde”. Publicado em 2025.
Link original: https://www.scielosp.org/article/csc/2025.v30n5/e00672025